A antiga cidade do Salvador no século XIX possuía dez freguesias
urbanas, que constituíam não só o segundo maior aglomerado populacional
do Brasil, mas também uma das principais áreas urbanas de toda a
América . Entre as quais se destacam para este trabalho a freguesia
do Santo Antônio Além do Carmo. Antes de analisar os aspectos sócio
- econômicos e culturais desta freguesia supracitada, vale discorrer
sobre o conceito de freguesia existente no século XIX. Freguesia
significa um conjunto de paroquianos, uma povoação sob o ponto de
vista eclesiástico. Ela é um espaço territorial limitado, com caracteres
administrativos de Estado ao mesmo tempo que religioso.
Para além do lado legal, as freguesias também
estavam ligadas ao poder religioso através de um poder emotivo e
sagrado com seus moradores.
Existia uma conscientização ou uma identificação entre a paróquia
e seus paroquianos, o que criava uma identificação entre os próprios
moradores, já que todos se sentiam pertencentes a uma mesma paróquia,
freqüentando as mesmas festas religiosas.
O fato mais relevante relacionado à freguesia
do Santo Antônio Além do Carmo é o de que, o grosso da classe média
de Salvador aí habitava, destacando-se os pequenos negociantes,
os alfaiates, os empregados públicos, e alguns poucos afortunados
como a Família Bandeira .
Assim, fica fácil identificar as duas grandes inclinações
econômicas da população desta freguesia, a primeira delas a lavoura
e a segunda o negócio. Era fácil encontrar nesta freguesia muitos
libertos ou escravos, geralmente empregados no trabalho da lavoura,
o que demonstra claramente a associação entre o tipo de trabalho
desempenhado e a inferiorização sócio-étnica. Permitindo-nos afirmar
a existência, assim como nos dias atuais, da relação expressa na
seguinte frase, "pretos e pobres". A maior parte de escravos eram
nascidos no Brasil. A maioria deles, desempenhava alguma profissão
mais qualificada, para a época, do que a agricultura, sendo educados
para trabalhos artesanais ou para o comércio, no caso dos homens,
e para o trabalho doméstico, no caso das mulheres. Outro fator que
pode evidenciar a menor condição econômica e social de uma dada
população ou família é a declaração por parte da mulher de uma profissão,
fato bem comum nesta freguesia, demonstrando que, a maioria das
famílias ali residentes seria de mediana categoria econômica, apesar
da existência de dois privilegiados moradores nesta freguesia: Pedro
Rodrigues Bandeira e Antônio Pedrosa de Albuquerque.
Quanto à vida cultural e os costumes da população
da Freguesia do Santo Antônio Além do Carmo, a documentação existente
não nos permite tecer considerações unicamente provenientes deles.
Percebe-se facilmente uma forte relação entre os moradores desta
freguesia e a ordem terceira do Carmo, revelada não só através da
doação de numerários e bens por essa freguesia para a dita Ordem,
mas também através da prestação de serviços voluntários pelos moradores
a esta instituição. O que se pode falar sobre a supracitada freguesia
é basicamente o mesmo que se pode dizer sobre toda a antiga Salvador.
Todos os viajantes estrangeiros que chegavam à cidade pelo mar eram
unânimes em descrever a paisagem como deslumbrante.
O casario no alto da cidade batido pelo sol, na
entrada daquela que é considerada uma das mais belas baias do mundo,
realmente deveria ser uma paisagem no mínimo interessante. Porém
essa surpreendente visão logo era colocada em contraste com as perceptíveis
deficiências estruturais da cidade, principalmente, higiênicas,
ou ainda quanto à aparência física ou comportamental dos seus habitantes.
Segundo a inglesa Maria Graham , o cheiro que exalava nas ruas da
cidade de Salvador era uma mistura de fumo, azeite, peixe, urina
e lixo. A cidade de Salvador, do século XIX, era marcada primeiramente,
por aquilo que Kátia Matoso chama de 'completa promiscuidade social'.
Já que ainda não havia uma rígida separação entre os bairros populares
e os bairros nobres, erguendo-se lado a lado habitações de setores
sociais abastados e de grupos excluídos . Apesar desta convivência
das extremas camadas sociais em um mesmo ambiente urbano, nas áreas
residenciais de Salvador havia uma nítida distinção das condições
de habitação . Entretanto, existia algo em comum entre elas. Faltava
nas casas, ricas ou pobres, um sistema de esgoto .
Os excrementos eram depositados em barris que eram armazenados em
algum cômodo da casa. As ruas de Salvador eram completamente sujas,
visto que nelas atiravam-se águas de serviços domésticos, lixo e
às vezes animais mortos, os chamados 'esterquilíneos'. Essas péssimas
condições de higiene proporcionavam segundo os médicos da época,
a propagação de diversas doenças que facilmente se transformavam
em surtos epidêmicos. A freguesia do Santo Antônio foi quase sempre
uma das mais atingidas pelas epidemias, como pode evidenciar as
epidemias de Febre Amarela (1849) e a de Cólera (1855) , primeiro
pelo grande número de habitantes, depois devido a ser um lugar de
comércio, atividade que proporcionava acumulo sujeiras e elementos
em decomposição. Outro costume da velha cidade de Salvador que era
digno de várias notas dos viajantes era em relação à reclusão das
mulheres baianas do século XIX. No meado deste século, a mulher
já começa a ter liberdade de sair acompanhada para as igrejas, festas
religiosas, procissões, reuniões familiares, teatros, festas cívicas,
entre tantas outras formas de recreação a elas permitidas como meio
de furar a clausura de algumas das mulheres baianas, principalmente
as casadas. As festas religiosas eram entre, todos os meios de recreação,
os mais freqüentados pelo sexo feminino. Para além das pessoas que
já habitavam as cidades, algumas das famílias que habitavam o interior,
principalmente as donas de engenhos, vinham para a cidade, especialmente
na semana santa . As visitas aos conventos era outro pretexto bastante
utilizado pelas senhoras como forma de sair em divertimento. Na
freguesia do Santo Antônio Além do Carmo, não faltava a possibilidade
de visitas a Igreja, ou conventos, já que as duas grandes Ordens,
a primeira e terceira do Carmo ali estão instaladas. O jogo era
outra forma de divertimento comum em Salvador naquela época.
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Créditos do texto para: Joel Nolasco Queiroz de C. e Silva.
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